Artesania, tecnologia e brasilidade em dois desfiles que marcaram minha experiência na semana de moda.
Em outubro, estive na São Paulo Fashion Week acompanhando a modelo Rojane Fradique em dois momentos distintos da moda brasileira: os desfiles da Artemisi e de Amir Slama.
Como fotógrafo, meu interesse vai além da imagem que chega à passarela. Gosto de observar o que acontece antes dela, os detalhes que constroem uma coleção e a energia que transforma uma ideia em presença. Entre os bastidores e os registros do desfile, essa experiência me permitiu acompanhar de perto duas propostas criativas que exploram, cada uma à sua maneira, diferentes possibilidades da moda.
E, logo no primeiro desfile, fomos surpreendidos por um momento que tornou tudo ainda mais especial.
Artemisi — The Holy Matter
Entre a tecnologia, o trabalho manual e o imaginário místico.
A coleção The Holy Matter, apresentada por Mayari Jubini, parte de um encontro entre universos que, à primeira vista, parecem opostos: a precisão da tecnologia e o tempo dedicado ao trabalho artesanal.
Ao longo dos 27 looks apresentados, essa relação ganha forma em bordados de cristais, pinturas, modelagens, lixamentos e polimentos. O processo criativo também incorpora escaneamento e impressão 3D, utilizados no desenvolvimento de esculturas corporais e acessórios que ampliam os limites tradicionais da construção de uma peça de roupa.
O resultado é uma coleção de forte presença visual, atravessada por referências místicas e figuras femininas que parecem surgir de outro imaginário. Na passarela, cada entrada assume a força de uma aparição, transformando o corpo em parte essencial da obra.
Para mim, acompanhar esse desfile foi também observar como materiais, texturas, luz e movimento se encontram na construção de uma imagem. Em uma proposta tão marcada pela materialidade e pelas formas esculturais, cada detalhe ganha importância.
Mas a experiência reservava uma surpresa.
Foi ali, no próprio evento, que descobrimos que Rojane Fradique abriria o desfile da Artemisi. A notícia tornou aquele momento ainda mais emocionante. Poder acompanhar e fotografar uma amiga ocupando essa posição em uma apresentação tão expressiva foi um privilégio que não estava nos nossos planos — e talvez por isso tenha sido tão especial.
Entre a expectativa dos bastidores e o instante em que ela entrou na passarela, vivi uma daquelas experiências que fazem a fotografia significar mais do que simplesmente registrar o que acontece. É também estar presente quando algo inesperado se transforma em memória.